Alagamentos: realidades e possibilidades.
Artigo em destaque com o Professor e Dr. Jairo Marchesan
No dia 12 deste mês, mais uma vez ocorreram alagamentos em algumas áreas da cidade de Concórdia, além de deslizamentos de terra e outras inundações em alguns bairros. Motivo: choveu muito em pouco tempo. Sim, realmente, é preciso reconhecer esse fenômeno, porém, é preciso ir além: precisamos identificar as razões desse fenômeno! Nesta direção, podemos citar:
- Partes da rede da macrodrenagem pluvial é obsoleta, isto é, antiga e reduzida para comportar o escoamento de grandes volumes de águas perante a crescente expansão das áreas urbanas, principalmente dos bairros;
- Crescente impermeabilização dos solos, em virtude de asfaltamento, calçadas, pisos de cimento, construções e outros. Sobre isso, há resistências, sobretudo da própria sociedade, pela pavimentação de ruas e de os por meio de paralelepípedos ou pavers. É preciso reconhecer que tais modalidades de pavimentação urbana possibilitam maior infiltração de água no solo, evitando escoamento desta e a geração de inundações nas ruas ou outros espaços;
- Disposição de lixo nas ruas, não armazenados adequadamente e que tapam ou entopem as “bocas de lobo”. Consequentemente, impedem que a água seja absorvida pela rede de drenagem;
- Ausência de obras estruturantes, como a construção de barragens de contenção. ou-se mais de uma década, e as istrações públicas do município não construíram nenhuma barragem de contenção de águas nos rios a montante da cidade. A última e única barragem de contenção foi construída no Rio dos Queimados, a montante do Parque de Exposições, no ano de 2011. Outra grande obra contra as inundações incluiu a abertura do canal do Rio dos Queimados, próximo à empresa BRF, com 525 metros de extensão e 3 metros de largura, dando vazão à mais de 60% da água do rio. Obras como essas não foram mais realizadas!
- Pressão e ganhos financeiros por parte da especulação imobiliária, mediante construções em áreas inadequadas ou de potencial risco, ignorando espaços de infiltração de água;
- Negligência em relação à necessidade de deixar permeável 20% da área dos terrenos, para facilitar a infiltração de água das chuvas. Muitos proprietários tapam ou impermeabilizam totalmente os terrenos com pavimentações em asfalto, pisos de cimento ou construções;
- Ocultação, drenagem ou negligenciamento de nascentes ou olhos d’água e dos banhados, sendo que estes representam as verdadeiras esponjas da natureza;
- Retificação, canalização e redução dos espaços dos rios;
- Supressão da vegetação e rejeição à arborização urbana. Aliás, a arborização urbana é considerada estorvo, pois oculta a fachada das lojas ou casas comerciais, produz folhas (algo classificado como “sujeira”), diminui os espaços urbanos e é responsável por mais trabalhos, necessários para a poda e cuidados… Imaginem plantar árvores na cidade!!!
- Ausência de programas de Educação Ambiental, tanto formais quanto informais, para a sociedade civil.
Estes e outros fatores e ações contribuem, de modo direto ou indireto, para as crescentes e sistemáticas inundações urbanas. Por estas e outras, pode-se dizer que as inundações estão dentro da normalidade. Não poderia ser diferente, porque a desculpa é que tudo é feito em nome do progresso econômico e dos interesses privados, que se sobrepõe aos aspectos públicos e ambientais: a especulação imobiliária, os episódios de ocultamento de nascentes ou olhos d’água, a drenagem de banhados, pequenos arroios e outros tantos. Como se diz popularmente, “não deu outra”! Sem pessimismo, mas o que estamos vendo, possivelmente veremos novamente. Sim, veremos, pois, com as mudanças climáticas, infelizmente, ainda negligenciadas ou não reconhecidas por muitos incrédulos e “terraplanistas”, a tendência é mais chuvas intensas em pouco tempo. Talvez, o pior disso tudo: não aprendemos com o que vimos ou assistimos. Continuamos com a mesma lógica de ocupação do espaço, sem considerar o ambiente físico natural.
Circulam discursos e práticas de que não podemos parar… é preciso continuar, “progredir”, ganhar, acumular, ostentar, desconsiderar a realidade e, acima de tudo, a natureza e seus limites!
Conforme abordado acima, as inundações são complexas e estão vinculadas a vários aspectos. Já, para minimizar ou, quiçá, solucionar, também há possibilidades de atuação, tanto públicas quanto privadas. Aqui citamos algumas:
- Construção de obras estruturantes – barragens de contenção a montante da cidade;
- Revisão e obras de macrodrenagem urbana;
- Reserva ou disponibilidade de espaços nos terrenos para infiltração de água nos solos (lembremos: os solos são os maiores armazenadores de água!);
- Ampla política pública de mobilização e incentivo à população para a captação e armazenamento das águas das chuvas por meio de cisternas;
- Implementação de um plano de arborização urbana: entendamos que, se apenas uma árvore comporta-se como um funil, isto é, tem a capacidade de captar a água da chuva e lentamente conduzi-la ao solo, imaginemos muitas árvores! Além disso, as árvores purificam e qualificam o ar, reduzem a velocidade dos ventos, contribuem para o conforto térmico, servem de abrigo para a fauna (especialmente das aves), dentre tantos outros benefícios ambientais;
- Respeito e consideração às nascentes e olhos d’água e aos espaços dos rios;
- Ampla e contínua política pública e privada de Educação Ambiental Formal e não Formal, conforme a Lei 9.795, de 27/4/1999. Além disso, instituição de um Plano Integrado de Resíduos Sólidos no município, ou seja, ações de separação e destino correto dos resíduos domésticos, comerciais, industriais e outros;
- Estímulo à construção de hortas urbanas, pomares e tantas outras boas e adequadas ações;
- E, finalmente e de grande importância: mesmo que, diante de alguns eventos extremos, aprendamos a conviver com tais situações, precisamos nos antecipar, prevenir e nos adaptar às condições do tempo.
Enfim, estas e outras ações não garantem novas inundações, porém, podem contribuir para minimizar outros eventuais eventos extremos. De todo modo, ações maiores (estruturantes) ou menores (operacionais), assim como a efetivação da Educação Ambiental são urgentes e precisam ser realizadas para evitarmos transtornos sociais, impactos psicológicos e prejuízos econômicos, dentre outros danos e avarias ainda maiores para a mitigação das mudanças climáticas. Pensemos nisso!